‘Obsessão’ e o espelho sombrio do desejo
Filme usa horror psicológico para discutir solidão, controle emocional e relações tóxicas
Por Jonas Moura
Frequentemente, o cinema de terror contemporâneo acaba se perdendo na repetição de fórmulas, apostando em sustos fáceis e excesso de sangue para chocar o público. É óbvio que há diversas exceções e que, sem muitas dificuldades, poderíamos listar excelentes obras dos últimos anos.
Inclusive, é justamente por romper com essa previsibilidade que “Obsessão” já nasce com a força de um clássico e pode figurar facilmente em um desses pódios.
O longa marca a estreia de Baker em Hollywood, após chocar a internet e a crítica com o perturbador “Milk & Serial”, um suspense disruptivo feito com apenas 800 dólares. No seu novo longa, ele prova que seu talento para o horror psicológico escala perfeitamente para o grande orçamento.
Muito além das convenções do gênero, o promissor diretor usa o horror para dissecar uma das maiores mazelas modernas: a nocividade das relações tóxicas.
Quando Bear, um homem incapaz de lidar com seus sentimentos, quebra o artefato místico One Wish Willow e deseja egoisticamente que sua amiga Nikki o ame mais do que qualquer pessoa no mundo, a engrenagem do pesadelo é acionada. A partir desse desejo inconsequente, “Obsessão” se transforma, por que não?, em um romance às avessas.
Longe de idealizar o afeto, o diretor filma a anatomia de um relacionamento despojado de consentimento e livre-arbítrio. Portanto, o que vemos na tela é o retrato cru dos limites da solidão humana e do egoísmo em seu estado mais puro. Um sentimento em que o outro deixa de ser um indivíduo e passa a ser apenas um objeto para a satisfação de vazios existenciais de quem o deseja.
E é essa atmosfera sufocante que ganha vida graças a escolhas técnicas e artísticas impecáveis do filme. A fotografia escura realça a desconfiguração humana de Nikki e potencializa a tensão.
Longe de ser apenas um recurso para esconder defeitos, o breu e o jogo de sombras também enquadram os personagens no centro da tela com um espaço vazio desconfortável, ressaltando visualmente não somente os momentos de terror, mas ainda o isolamento profundo de cada um.
Essa escuridão é perfeitamente amarrada por uma trilha sonora cirúrgica, que dita o ritmo entre a paranoia e a possibilidade do amor, fazendo o espectador prender a respiração antes mesmo que o horror se manifeste graficamente.
Contudo, seria desonesto não destacar que o coração do filme pulsa na adequada interpretação da sua dupla de protagonistas. Michael Johnston, conhecido por “Teen Wolf”, entrega um Bear complexo e perturbador. Seu personagem não é o monstro clássico, mas sim o retrato perigoso do cara legal e ressentido, cuja solidão sabota o próprio bom senso.
Ao seu lado, Inde Navarrette, de “13 Reasons Why”, brilha como Nikki. A atriz sustenta muito bem as transições de uma mulher normal para uma figura obsessiva e de olhar gélido, conseguindo manter a nossa empatia mesmo nos momentos mais descontrolados da personagem.
Desse modo, a química distorcida entre Johnston e Navarrette sustenta a tensão do primeiro ao último minuto.
E, não à toa, “Obsessão” incomoda porque funciona como um espelho. Barker prova que o verdadeiro terror não necessariamente vem apenas do sobrenatural ou do excesso de violência. Aqui, o horror pode vir, sim, da incapacidade humana de lidar com a própria solidão e com as barreiras éticas do próprio ego. Por isso, essa é uma produção tão marcante e que, certamente, entrará na lista dos melhores do gênero da década.



