Por Hyader Epaminondas

Algumas histórias parecem desafiar as leis do tempo. Elas mudam de formato, encontram novos públicos e continuam ecoando muito depois que as luzes da sala de cinema se acendem. E, para minha surpresa, descobri que “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” ganhou uma adaptação em quadrinhos ilustrada por Bruno Freire pelo selo Seguinte, da Companhia das Letras.

Embora eu ainda não tenha tido a oportunidade de folhear as páginas para sentir de perto a transição da tela para o papel, de como a linguagem em si foi adaptada e o que ficou de fora ou acrescentado, é legal perceber como essa história cavou novos suportes para continuar existindo, especialmente em um filme em que a trilha sonora e os elementos sensoriais são essenciais para ampliar as nuances da história.

Quando eu fiquei sabendo que o ilustrador e o diretor Daniel Ribeiro estarão juntos na Poc Con 2026, no sábado, 6 de junho, em um painel às 17h para discutir os desafios de traduzir essa delicadeza entre mídias diferentes, antes mesmo desse encontro acontecer, me vi retornando a essa história doze anos após seu lançamento.

Revendo o filme hoje, fica mais fácil perceber como ele pode ser lido como o primeiro capítulo de uma espécie de trilogia espiritual dentro da filmografia de Daniel Ribeiro. Um conjunto de obras que acompanha diferentes formas e etapas de amar, marcado pelas transformações do desejo, da descoberta e do amadurecimento emocional.

“Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” representa o início da jornada, quando o amor ainda é uma promessa e o futuro parece aberto a todas as possibilidades. Já “Eu Vou Ter Saudades de Você”, ainda inédito no Brasil, ocuparia o centro desse percurso, explorando os desafios de construir uma vida compartilhada. Por fim, “13 Sentimentos” surge como um epílogo, observando os ecos deixados pelo fim de um relacionamento de dez anos.

A própria história de produção do filme parece refletir os sentimentos que ele retrata. Nascido como um curta-metragem independente, realizado de maneira artesanal e protagonizado por atores ainda no início de suas carreiras, o projeto cresceu até se tornar um longa de reconhecimento internacional e alcançar a pré-seleção brasileira para o Oscar. Existe uma simetria curiosa entre a trajetória da obra e a de seus personagens: ambos vivem o entusiasmo, os riscos e as incertezas que acompanham todas as primeiras vezes.

O filme carrega uma textura analógica: personagens ainda se comunicam por ligações telefônicas e cada um tem um celular cheio de identidade, muito diferente dos bloquinhos retangulares padronizados de hoje, um detalhe que agora parece quase arqueológico. Seu maior milagre, visto que foi o primeiro longa do diretor, é que, em vez de soar datado, ele parece ter amadurecido junto com os olhos de quem o assistiu na época do lançamento.

Para além da questão da acessibilidade, a limitação visual do protagonista carrega o símbolo mais bonito do filme sobre o que significa amar pela primeira vez. A paixão juvenil, em sua essência, é uma experiência tateante e puramente sensorial. Quando o amor acontece ali, ele não passa pelo crivo das aparências, das convenções estéticas ou dos julgamentos superficiais que a visão tantas vezes impõe. É um afeto construído às escuras, guiado pelo som de uma voz nova que quebra o silêncio da sala de aula, pelo cheiro deixado em um casaco emprestado e guardado secretamente no quarto e pelo ritmo dos passos divididos no caminho de casa.

O diretor evita sexualizar seus personagens para concentrar o olhar nas subjetividades e nas nuances do afeto, construindo uma narrativa que reflete sobre a descoberta da sexualidade sem abrir mão da sensibilidade do ato, enquanto explora adolescentes em busca de pequenos gestos de independência, um momento da vida em que o desejo, a identidade e a autonomia começam a ganhar forma.

Essa condição opera como uma analogia perfeita para a vulnerabilidade da própria adolescência. Nessa fase da vida, todos nós somos um pouco cegos. Caminhamos no escuro, tateando o mundo em busca de identidade, tentando adivinhar as intenções dos outros, lidando com a crueldade camuflada de piadas escolares e morrendo de medo do que está logo à frente.

A dinâmica dos três personagens principais ilustra perfeitamente essa transição de território com a chegada do novo estudante, que subverte essa geografia do afeto como o elemento que força a expansão de horizontes, onde cada ator parece traduzir uma força arquetípica da juventude.

Ghilherme Lobo entrega um Leonardo cuja fragilidade física é apenas a camada superficial de uma teimosia latente. Seu corpo em cena não pede piedade, mas expressa a urgência contida de quem quer romper as amarras do próprio casulo. Fabio Audi, por sua vez, confere a Gabriel a leveza exata do elemento estrangeiro, aquele que chega sem o peso dos preconceitos locais e cuja presença física funciona como um catalisador de coragem, trazendo o movimento e o mundo exterior para dentro da órbita estática do protagonista.

Fechando esse triângulo de tensões, Tess Amorim apresenta uma Giovana que equilibra a doçura do cuidado com o egoísmo natural do primeiro ciúme. Ela simboliza o porto seguro que, por medo do isolamento, tenta reter o barco no cais. Juntos, os três atores dão contorno físico aos conflitos universais do amadurecimento: o desejo de partir, o medo de ser substituído e a irresistível e assustadora necessidade de se deixar transformar pelo outro.

Esta é uma crônica dolorosa, porém muito bonita, sobre a busca por autonomia, dolorosa porque os personagens sofrem as dores das primeiras vezes, mal sabendo eles que essas primeiras vezes raramente acontecem de novo. Crescer não é encontrar alguém que guie seus passos por caminhos seguros, mas aprender a caminhar no próprio escuro, descobrindo o desejo de cruzar fronteiras e de voar para longe da proteção do lar.

Foto: Lacuna Filmes
Foto: Lacuna Filmes
Foto: Lacuna Filmes

A poética dos objetos e o crepúsculo analógico

Cada elemento em cena funciona como uma metáfora desse rito de passagem, e até a própria sala de aula se torna um campo de batalha simbólico, onde o barulho persistente de uma máquina de escrever em braile ecoa como o manifesto de uma individualidade que incomoda os outros. Há também o contraste genial entre a impossibilidade de enxergar e o desejo de experimentar o mundo, como na cena do cinema, onde as imagens na tela precisam ser traduzidas em sussurros no ouvido, transformando o escurinho do cinema em um pacto de intimidade partilhada.

Até mesmo os fenômenos naturais ganham contornos poéticos. A explicação de um eclipse lunar usando pedras no chão da rua de madrugada é a perfeita tradução do que o filme faz: pegar o que é intangível, imenso e invisível aos olhos e torná-lo palpável através do toque e da sensibilidade. E há, claro, a textura quase fantasmagórica desse cenário de meados da década passada. O filme captura os últimos respiros de uma adolescência verdadeiramente analógica e, para mim, que estou prestes a ultrapassar minhas três primeiras décadas de vida, é como observar um fantasma antes de ele perceber que já se tornou memória.

As conversas descompromissadas depois da aula, os bilhetes, a partilha física dos fones de ouvido, onde uma música dividida significava a fusão de dois universos privados, nesse caso eram uma caixa de som para iPod. Tudo ali carrega uma simplicidade que a hiperconexão atual parece ter extinguido. Olhar para trás hoje evoca um sentimento quase arqueológico. É testemunhar um mundo que ainda respirava sem a ansiedade algorítmica constante, uma juventude em suspensão que tinha o luxo do tédio e o privilégio de existir sem a obrigação de transformar cada instante em performance para uma tela.

O diretor demonstra um fascínio pelas pequenas descobertas, onde o foco nunca está na pressa do desfecho, mas na dilatação do processo: o silêncio desconfortável que se instala no quarto, a hesitação antes de estender a mão, o jogo de garrafa em uma festa que escancara a exclusão e a urgência de um beijo roubado no meio do asfalto, sob o impacto da raiva e do desabafo.

O filme entende e respeita o fato de que a adolescência é feita de exageros emocionais legítimos. Quando somos jovens, nada é passageiro, tudo é definitivo, até não ser. Um toque acidental de dedos ou a visão da nudez vulnerável em um vestiário ganham a proporção de um brilho na alma, e um beijo tem o peso mitológico de reorganizar o caos do universo inteiro.

Nenhum diálogo sintetiza melhor essa pureza do que a célebre pergunta sobre como devolver um beijo roubado: “Se você roubasse um beijo de alguém, como faria para devolver?”. Há uma magia infantil nessa indagação porque ela revela a essência do amor juvenil: a sutil percepção de que se descobriu um sentimento grande demais para caber nos limites do próprio corpo. Não se trata de posse, mas de reciprocidade, de uma lógica poética que só faz sentido quando ainda não fomos endurecidos pelo cinismo do mundo adulto.

A trilha sonora, com suas notas de indie internacional, opera como lembranças guardadas em um velho HD, resgatando um período em que a estética britânica invadia as capinhas de celular estampadas com a bandeira do Reino Unido. Elas não acompanham apenas a jornada dos personagens, mas também a de quem viveu aquela época, quando montar uma playlist era quase um exercício de autodefinição e cada nova banda descoberta parecia abrir uma pequena janela para o mundo.

É uma história atemporal sobre o amadurecimento porque abraça uma verdade universal: crescer dói e ninguém atravessa a juventude sem marcas. Todos nós saímos dessa fase carregando lembranças que parecem insignificantes para os outros e a estranha, porém certeira, sensação de que uma parte fundamental de quem fomos ficou eternamente guardada naquele breve instante em que descobrimos quem éramos, sem nunca mais pedir desculpas pelo espaço que ocupamos no mundo.