Por Luiza Xavier

Marcia Lucas dizia amar o trabalho de montagem. Vencedora do Oscar por “Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança”, ela morreu na última quarta-feira, dia 27 de maio de 2026, aos 80 anos, e levou décadas para ter seu nome reconhecido à altura do que construiu.

“Marcia era uma força… uma verdadeira pioneira para as mulheres no cinema e uma das editoras mais influentes da história cinematográfica; ela ajudou a redefinir o que a montagem poderia ser.” É o que sua família diz, de acordo com a BBC.

Marcia faleceu em Rancho Mirage, na Califórnia, em decorrência de um câncer. A Lucasfilm, produtora de toda a franquia “Star Wars”, lamentou a perda, e Mark Hamill, o Luke Skywalker da trilogia original, prestou homenagem à “artista inovadora” que também foi, segundo ele, “uma pessoa genuinamente boa.”

Quem foi Marcia?

Nascida em 4 de outubro de 1945, em Modesto, na Califórnia, Marcia trilhou uma trajetória essencial na indústria cinematográfica. Ela cresceu com sua mãe, May Griffin, uma mãe solo que não possuía muitos recursos financeiros. Costumava ver filmes clássicos na televisão, como “The Swashbucklers”, de Errol Flynn, e musicais de Busby Berkeley, e então se apaixonou pelo cinema desde nova.

Sua entrada no cinema não foi por vocação imediata, mas por necessidade. Começou para garantir estabilidade financeira. “Quanto mais eu fazia, mais eu amava. E quanto mais eu queria fazer, menos me importava se iam me pagar ou não. Eu só queria estar editando os filmes”, disse em entrevista ao podcast “Icons Unearthed”. O caminho foi longo: passou por bibliotecária de cinema, editora assistente e dirigiu inúmeros comerciais de TV. Quando saiu da Sandler Film em busca de novos trabalhos, ouviu falar de Verna Fields, uma das poucas editoras mulheres que gostava de contratar outras mulheres em um mercado onde as desculpas para barrar a entrada delas nas salas de corte eram inúmeras.

Marcia Lucas ao lado do marido, o diretor George Lucas, editando “Star Wars”. Foto: Julian Wasser/The LIFE Images Collection

Foi justamente estagiando com Verna Fields, no fim dos anos 1960, que Marcia conheceu George Lucas, diretor e fundador da Lucasfilm. Os dois se casaram em 1969, e a parceria afetiva logo se tornou também criativa. O casamento durou 14 anos e se encerrou justamente no ano em que Marcia editou seu último filme da saga “Star Wars”.

Foi com George que editou “THX 1138” (1971), ficção científica de tom político e pessoal desenvolvida a partir do curta universitário dele, nos bastidores do estúdio independente de Francis Ford Coppola. O filme foi um fracasso comercial, mas consolidou a parceria criativa do casal. Em “American Graffiti” (1973), assumiu a coedição ao lado de Verna Fields, finalizando o filme na garagem de Coppola. O resultado foi um sucesso inesperado de crítica e público, e rendeu a Marcia sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Montagem.

Sua primeira participação em longa-metragem foi em “The Rain People” (1969), seguida de “Médium Cool” (1969). Depois, um diretor de comerciais a convidou para editar um documentário, que acabou sendo indicado ao Oscar na categoria de curta-metragem documental. Foi nesse período que passou a assinar como Marcia Lucas.

Antes de “Star Wars”, já havia construído um currículo sólido. Trabalhou com Martin Scorsese em três filmes: “Alice Não Mora Mais Aqui” (1974), “Taxi Driver” (1976) e “New York, New York” (1977). Pela montagem de “Taxi Driver”, recebeu uma indicação ao BAFTA de Melhor Edição. Também foi indicada ao Oscar pela montagem de “American Graffiti” (1973), dirigido por George Lucas.

Na franquia “Star Wars”, atuou como editora nos filmes da trilogia original: “Star Wars” (1977), “O Império Contra-Ataca” (1980) e “O Retorno de Jedi” (1983). Foi pelo primeiro que venceu o Oscar de Melhor Montagem em 1978, ao lado de Paul Hirsch e Richard Chew.

A linguagem de Marcia

O que definia Marcia Lucas como editora era simples: ela nunca perdia de vista a história e os personagens, focando em mover o público pela emoção e narrativa. Não à toa, o editor Dwayne Dunham revelou: “Se havia algo dramático ou emocional, George dava para a Marcia. E George sempre dizia: guarde uma pessoa cuja opinião você confia até o fim, e essa pessoa era sempre a Marcia.”

Essa confiança se traduziu em decisões que moldaram “Star Wars” para sempre. Foi Marcia quem sugeriu que Obi-Wan Kenobi devesse morrer no duelo com Darth Vader, uma escolha que deu peso dramático à jornada de Luke e estabeleceu a dimensão mítica da saga. Ela também foi responsável pela montagem da batalha final da Estrela da Morte, um trabalho de oito semanas em que usou imagens de arquivo de combates aéreos reais para estruturar as sequências antes que os efeitos visuais fossem produzidos. George Lucas reconheceu publicamente a complexidade do trabalho.

Apesar de tudo, Marcia sempre foi clara sobre seu lugar: “Eu definitivamente fiz as cenas funcionarem. Fiz a batalha final funcionar. Mas eu não fui a escritora, não fui a diretora e não criei os nomes. Darth Vader, Luke Skywalker, todos esses nomes são clássicos. George criou tudo isso usando sua incrível imaginação.” A própria transição da indústria para o digital, segundo Marcia, foi outro fator que a afastou definitivamente da edição após “O Retorno de Jedi”.

O reconhecimento tardio

Apesar de seu papel central na construção da trilogia original, o nome de Marcia Lucas foi constantemente apagado da narrativa oficial de “Star Wars” após o divórcio de George Lucas em 1983. Documentários, livros e retrospectivas passaram a celebrar George como o gênio responsável pela saga, contribuindo para um silenciamento que durou décadas.

Quando Marcia venceu o Oscar em 1978, era apenas a sétima mulher na história a receber a estatueta na categoria de Melhor Montagem. Décadas depois, esse número chegou a apenas 13, um retrato do quanto a indústria ainda fechava suas portas para as mulheres nos bastidores.

Foto: Reprodução

Nas últimas décadas, no entanto, historiadores, pesquisadores e fãs passaram a resgatar e reconhecer a real dimensão de sua contribuição. Marcia foi cada vez mais apontada como peça-chave para o sucesso da trilogia, não apenas como editora técnica, mas como conselheira narrativa e emocional de George Lucas.

Marcia Lucas editou alguns dos filmes mais importantes do cinema americano, moldou narrativas que atravessaram gerações e abriu caminho para mulheres numa indústria que insistia em excluí-las. Seu último crédito foi em 1983, mas sua influência permanece eterna.