Por Hyader Epaminondas

Este ano, a Poc Con chega à sua 6ª edição e já não cabe mais dentro da definição confortável de “evento de nicho”. Talvez nunca tenha cabido de verdade. A prova está nos números: a última edição atraiu um público recorde de 16 mil pessoas, consolidando o evento como um dos espaços mais vibrantes da cena independente brasileira.

Se, em 2019, o público, com cerca de 3 mil visitantes, já se apertava em filas consideráveis entre 73 artistas com o coração na mão, hoje o evento cresceu tanto que redesenhou o que a gente entende pelo mercado independente de quadrinhos no Brasil. “Vem pro vale” funciona aqui como síntese de um movimento que encontrou forma, público e direção.

Desde que foi idealizada pela dupla dinâmica Rafael Bastos e Mário César, a Poc Con nasceu com a proposta de ampliar a visibilidade de artistas LGBTQIAPN+ e provocar um mercado que, por décadas, delimitou quem tinha autorização para contar histórias e, principalmente, quem merecia ser visto, ouvido e publicado.

Segundo Mário, a ideia surgiu a partir de uma inquietação compartilhada pelos dois fundadores, numa conversa no aniversário de Rafael, sobre a falta de reconhecimento desses criadores em eventos do setor e nos catálogos das editoras.

“Nos incomodava como artistas LGBTQIA+ não eram muito valorizados em outros eventos do setor e também a falta de autores queers nos catálogos das editoras de quadrinhos. A partir disso, falamos sobre a possibilidade de criar um espaço no qual pudéssemos dar mais visibilidade a artistas LGBTQIA+ e mostrar todo o potencial das histórias que podemos contar.”

Esse crescimento, que poderia ser lido apenas como uma curva natural de expansão, mesmo quando precisou se adaptar com edições virtuais e versões reduzidas, a Poc Con nunca se comportou como um evento em pausa, mas como um organismo em mutação, testando formatos, mantendo sua comunidade ativa e, sobretudo, acumulando repertório.

Quando chegou ao Centro Cultural São Paulo, em 2023, e foi a minha primeira vez visitando o evento, já com mais de 120 artistas e um público que ultrapassou 12 mil pessoas, ficou evidente que não se trata mais de ocupar um espaço existente, mas de expandir e redesenhar o próprio tamanho desse mercado. Ela não cresce apesar da curadoria, ela cresce por causa dela.

“Além de organizadores do evento, nós dois também somos artistas inseridos na cena, então realmente conhecemos a fundo o mercado de quadrinhos e artes gráficas e sabemos como é difícil ser um artista independente. Isso é algo que mantém nossos pés no chão.”

Esse compromisso também se reflete no processo de curadoria, conduzido com atenção virginiana à diversidade de perfis, trajetórias e identidades representadas no evento, como explica Rafael:

“Outra coisa que priorizamos no processo de curadoria da Poc Con é realmente ter diversidade e abranger todas as letras da sigla, o que sempre nos faz ter um cuidado redobrado nessa etapa.”

O resultado é um espaço onde estilos, narrativas e formatos não competem entre si, mas criam uma espécie de ecossistema vivo, onde o excesso vira identidade. Lembro da edição do ano passado, quando um artista criava peças únicas estampando camisetas com cândida como tinta, num gesto tão inusitado que traduz perfeitamente esse espírito de experimentação e liberdade que define o evento, minucioso nos detalhes e ambicioso no todo, sustentando a sensação de descoberta constante, mesmo para quem já acompanha o evento há anos.

E isso tem impacto direto no mercado de quadrinhos independentes. Porque o evento funciona tanto como vitrine quanto como um dispositivo de validação e projeção. Para muitos artistas, é ali que acontece o primeiro teste real de circulação, o momento em que a obra sai do ambiente digital e encontra o corpo do público, o olhar, a troca direta, o retorno imediato.

Não se trata só de vender, embora vender importe, e muito, mas de entender o próprio trabalho em escala, de perceber onde ele toca, onde reverbera, onde cria comunidade. É onde você troca o “olá” tímido das redes sociais pelo abraço real na mesa do artista. E essa comunidade, diferente de uma audiência genérica, se constrói na recorrência, volta, acompanha, indica, sustenta. Para Mário, esse engajamento é um dos aspectos que mais diferenciam a feira dentro do circuito geek.

“Ao contrário de outros eventos geeks, nos quais muitas vezes as pessoas vão apenas passear ou ver convidados famosos, na Poc Con existe uma procura genuína por quadrinhos e produtos autorais.”

Mário César e Rafael Bastos, organizadores da Poc Con. Foto: Reprodução/Facebook/Poc Con

O sucesso no CCSP deixou claro que o evento não parava de crescer, acolhendo cada vez mais público, e a edição de 2025 mudou de endereço para ocupar o Centro de Eventos São Luís. Foram cerca de 16 mil pessoas circulando ao longo de dois dias e mais de 180 artistas plurais ocupando o espaço, números que, por si só, já impressionam, mas que ganham outra dimensão quando atravessados por um dado simbólico: a presença inédita de artistas do Peru e da Argentina.

Você vai comprar um print de um artista nacional e volta com um quadrinho argentino, uma arte peruana e a certeza de que a cena latino-americana nunca esteve tão conectada. Desde o ano passado, a Poc Con começou a se posicionar como um ponto de convergência continental.

Poc Con 26: Avisa lá que o Vale aumentou de tamanho

E, se a conexão latina abriu as portas, a edição deste ano consolida de vez essa vocação internacional. Pela primeira vez, o evento traz uma atração direto da China: Liang Azha, que desembarca no Brasil para divulgar o sucesso “Starting with a Lie”, com publicação em breve pela MPEG Editora.

Cruzando a fronteira hermana mais uma vez, a feira recebe o argentino Luciano Vecchio para falar um pouco sobre seu trabalho nos quadrinhos com os Filhos do Átomo na Marvel. Ver criadores de universos tão distintos dividindo o mesmo teto é a prova definitiva de que o evento virou um hub global de celebração.

“Acho que isso mostra o potencial que o projeto tem e o tanto que já cresceu em tão pouco tempo. Não é a primeira vez que temos expositores de fora do Brasil. Na última edição, já tivemos artistas do Peru e da Argentina. E não foram artistas que convidamos, eles próprios se inscreveram e tentaram vaga pelo processo seletivo. Na edição deste ano, a vinda de Vecchio e Liang se deu graças a parcerias com o Baú das HQs e a Editora MPEG.”, destaca Mário César.

E, dos brasileiros, fica o destaque para a presença ilustre de Laerte Coutinho, acompanhada de sua já tradicional fila quilométrica de autógrafos, e do escritor Gui Ribeiro, que realiza o lançamento de seu mais novo romance ambientado na Era Vitoriana, “As Palavras Não Ditas”, abordando as vivências dentro do espectro autista, com Levi aprendendo a compreender seu lugar no mundo e no coração de alguém. Mas isso é só um gostinho do tempero nacional que toma conta do evento, reunindo dezenas de artistas que vão de A a Z com obras sensacionais e uma criatividade que transborda por cada corredor.

Não há uma diluição para caber em formatos mais palatáveis ou comerciais. Há, ao contrário, um refinamento constante, uma confiança de que o público acompanha quando a proposta é clara e bem construída, abrindo caminho quando ainda não havia espaço algum. Essa mesma direção que aponta para o futuro se materializa nas novidades desta 6ª edição, que expande suas fronteiras para além das páginas impressas, ultrapassando o limite do nanquim e dos balões para abraçar também o escurinho das telonas de cinema.

Este ano, quem gosta de filme nacional vai ganhar um painel imperdível: a Manequim Filmes traz para a Poc Con a campanha de divulgação do aguardado filme “Quinze Dias”, que estreia agora em junho nos cinemas. O bate-papo contará com a presença de Miguel Lallo e Vitor Martins, autor do livro que deu origem ao longa.

E, para fechar essa celebração cinematográfica com chave de ouro, o evento recebe o premiado diretor Daniel Ribeiro, do aclamado “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, ao lado de Bruno Freire, responsável pela adaptação da história para os quadrinhos, mostrando que a força da narrativa LGBTQIA+ brasileira hoje transita com sinergia entre a literatura, os quadrinhos e o audiovisual.

Do Nanquim ao Close: um Mercado em Expansão

O que a Poc Con evidencia é que mercado se desenvolve com direção, que passa por curadoria, por escuta e por uma atenção milimétrica aos detalhes que normalmente passam despercebidos, mas que, somados, definem a experiência do evento inteiro. Talvez seja justamente por isso que a principal métrica de sucesso da convenção não esteja nos corredores lotados ou no número de expositores, mas nos relatos de quem retorna a cada nova edição.

“Com certeza são os relatos de quem participa. O que mais ouvimos, tanto de expositores quanto do público, é como a Poc Con se tornou o evento favorito de muita gente por ser um espaço acolhedor, onde todos se sentem à vontade e encontram um público realmente interessado no trabalho dos artistas.”

Essa percepção, segundo Rafael, também está ligada à falta de representatividade queer no entretenimento voltado para as massas. Como ele próprio observa, “esse tipo de resultado não é algo que se planeja ou prevê quando se cria um projeto assim. É fruto de muitas pessoas acreditando que é possível construir espaços desse tipo. No fim, é uma demonstração do potencial que existe quando nos unimos como comunidade”.

É essa precisão que transforma o pavilhão em uma ocupação total: um organismo que pulsa com um vale de mais de 220 artistas, além de editoras, lojistas, tatuadores, área de jogos, oficinas e o icônico concurso cosplay, que já é patrimônio afetivo do evento. O crescimento a cada edição passa a funcionar como a consequência lógica de um projeto que entende exatamente o que quer ser e, talvez mais importante, o que se recusa a deixar de ser.

Salve a data!

Com entrada gratuita, a maior feira LGBTQIA+ de quadrinhos do país acontece nos dias 5 e 6 de junho de 2026, no Hall 2 do Distrito Anhembi. E, se existe um convite possível depois de tudo isso, ele é direto: confiram a arte criada pela artista homenageada deste ano, Germana Viana, para o pôster oficial da Poc Con 2026!

Foto: Divulgação

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