Por Ally Vianna

Num vídeo com quase meio milhão de visualizações, um homem narra a relação entre o Nordeste, o Diabo e São Cipriano. É Sesyom, morador do Vale do São Francisco, que um dia decidiu ligar uma câmera para registrar histórias do Sertão. A uns poucos quilômetros dali, um estudante quase formado em Artes Visuais desdobra telas e curadoria. E em outra ponta da mesma cidade, uma arte-educadora decora telas em casa depois do expediente. Três histórias. Um mesmo chão árido e fértil.

A narrativa mais repetida sobre arte no interior do Brasil é a da fuga: o talento que some para o Sul, busca os holofotes e volta (quando volta)  como nome de rua ou homenagem póstuma. Porém, nos últimos anos as redes sociais embaralham a geografia do reconhecimento. Assim, a lógica da migração acaba perdendo sua força,  no Vale do São Francisco, artistas constroem seus trabalhos a partir do próprio território.

O contador de histórias do Sertão Gótico

A conta no YouTube se chama @osesyom e reúne pouco menos de dois milhões de visualizações em vídeos sobre mitologia e teologia nordestina. Há títulos sobre o imaginário do Diabo no Sertão, sobre São Cipriano, sobre o cangaço e suas contradições. Não há câmera profissional nem estúdio montado. Há pesquisa, às vezes de um ano e a vontade de um homem que veio trabalhar no Vale do São Francisco e ficou.

Imagem: Redação | Sesyom exibe referências visuais do Sertão presentes na produção de conteúdo do canal

“Juntei duas coisas que eu já gostava: contar histórias e culturas do Sertão”, explica Sesyom, que chegou à região para trabalhar em uma firma, iniciou uma faculdade que não concluiu e encontrou aqui o que chama de “um dos melhores lugares com relação a oportunidade de emprego” no Nordeste. Os vídeos vieram depois, como uma extensão natural de quem se perguntava onde estava o conteúdo que desejava consumir.

“Eu só produzo os vídeos por hobby. São algo que eu gostaria de assistir, mas ninguém fazia. Por isso eu mesmo comecei.”

A produção de cada vídeo oscila entre dois dias e um ano. O vídeo sobre Lampião, ainda em construção, acumula a leitura de três dezenas de livros “Minha procrastinação, os mil roteiros excluídos e reescritos”, é o que o público não vê, confessa. 

Sobre viver de arte no Sertão, Sesyom é direto: “Definitivamente não.” O sustento vem do emprego formal. Os vídeos são a vida paralela. Mas quando perguntado sobre o algoritmo, ele discorda da visão pessimista comum entre criadores independentes. “Acredito que os algoritmos mais recentes ajudam, principalmente os de nichos tão específicos como o meu. Além de nos conectar, de alguma forma gera uma espécie de comunidade com os mesmos interesses.”

Sair daqui para buscar reconhecimento? A resposta chega sem hesitação: não. “Não quero deixar o Nordeste, especialmente o Sertão, para ir viver em outra região.” Se pudesse definir seu trabalho em uma frase, Sesyom recorre a uma citação que lembra Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso.”

A narrativa que o Sertão precisa contar de si mesmo

Uallas Dias veio de Jacobina, no interior da Bahia para o curso de Licenciatura em Artes Visuais da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF). Trouxe na bagagem a percepção de que o Vale oferece algo que sua cidade natal não tinha em quantidade suficiente: possibilidades. O SESC, o Centro de Cultura João Gilberto, o Museu do São Francisco, o Museu do Sertão.

Imagem: Redação | Uallas Dias posa ao lado de obras expostas em mostra de artes visuais.

Hoje, às vésperas de concluir o TCC, Uallas transita entre estágios de docência pelo PIBID, assistências de produção em audiovisual e a curadoria artística, área essa em que diz se sentir mais à vontade. “Eu me vejo mais nesse caminho”, conta, “de selecionar trabalhos de arte de acordo com uma temática para determinadas exposições e pensar em um diálogo entre as obras para um propósito.”

Foi como curador e co-idealizador que Uallas ajudou a criar o projeto MARGE (Mostra de Artes Visuais), nascido como proposta de estágio dentro da universidade, a mostra ganhou repercussão regional e já vai em sua segunda edição. “A proposta é sempre ampliar o projeto, trazer visibilidade pro curso, pra esses artistas”, diz. “A tendência é crescer.”

“A gente parte justamente do nosso local, da nossa região, do nosso contexto, para compreender melhor o contexto que a gente vive.”

Dentro do PIBID, Uallas trabalha para que estudantes da região construam suas próprias narrativas artísticas sem recair em estereótipos. O Sertão que ele leva para a sala de aula não é só seca e escassez, é ribeirinho, são egressos de artes como Morgana e Delirium, artistas locais que ele cita como referência.

Mas Uallas também é honesto sobre os limites. A carga horária de Artes na grade escolar é curta demais para projetos mais ambiciosos. Prefere oficinas, nos quais pode trabalhar com calma. E confessa que sua produção como artista visual fica para segundo plano diante das demandas de todas as outras frentes. “Eu acabo não praticando muito, fazendo uma produção artística quanto eu gostaria.” Entre tantas funções, a própria arte às vezes precisa esperar. 

“Arte é o que tempera a vida”: a arte-educadora que ainda se descobre artista

Greice Lima sabia desde criança o que queria ser. Quando as outras crianças inventavam profissões, ela respondia: “Professora de artes”. Décadas depois, formada em Licenciatura em Artes Visuais, Greice se divide entre a educadora que sempre foi no imaginário e a artista que foi descobrindo aos poucos, especialmente durante o curso, quando começou a se enxergar de fora.

Imagem: Redação | Greice Lima produz ilustrações inspiradas em elementos do Sertão e da cultura nordestina.

“Uma artista ainda tentando me ver como artista”, define. Sempre pintou, sempre presenteou amigos com seus trabalhos. Mas a virada foi acadêmica. O curso a ensinou a nomear o que fazia, a buscar referências, a entender por que enxerga cores por trás dos tons e tenta capturar ao máximo o que está vendo. “Ver criando forma é maravilhoso”, diz.

“Como educadora me vejo como uma que incentiva a livre criação, a busca por conhecer artistas e as diversas linguagens que a arte tem. Quanto mais se conhece, mais material intelectual terá para criar.”

Na prática cotidiana, Greice observa os mesmos entraves que marcam a trajetória de quase todo artista que tenta sobreviver no interior nordestino: a desvalorização que começa cedo, ainda na escola. É comum encontrar professores com outras formações lecionando Artes. O impacto, ela afirma, é direto na percepção do público adulto. “Ao mesmo tempo em que tem pessoas que sabem valorizar teu trabalho, existem aquelas que querem pôr o preço nelas.”

Mas Greice não para. Acredita no próprio trabalho com a determinação de quem sabe que a arte move algo nas pessoas que outras linguagens não alcançam. “Se alguns artistas conseguem se destacar, eu também posso.” E resume: “Arte é o que tempera a vida.”

O Sul maravilha pode esperar

Nenhum dos três personagens desta reportagem falou em largar tudo e tentar a sorte em outro lugar. Nenhum deles mencionou o chamado “Sul maravilha” como solução. É uma geração diferente da que encheu ônibus e caminhões de mudança ao longo do século passado.

O algoritmo não exige passagem de ônibus. A MARGE acontece no Vale do São Francisco. As telas de Greice existem porque ela quis que existissem. É verdade que existe a falta de incentivo público, de espaços, de formação em gestão cultural, de reconhecimento financeiro, mas há também uma consciência nova, em que a narrativa do Sertão pode e deve ser contada pelos próprios sertanejos. Que a arte feita às margens do São Francisco não é arte de segunda categoria. É arte de lugar.

“A gente não se limita apenas a um semiárido da seca”, diz Uallas Dias, resumindo, sem querer, o que Sesyom, Greice e tantos outros criadores anônimos estão provando, dia após dia, vídeo a vídeo, tela a tela: o Sertão tem muito mais a dizer. E está dizendo.